Guia · Taxas e Renda Fixa
Como funciona a marcação a mercado no Tesouro Direto, com exemplo prático
Entenda por que títulos do Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ podem mostrar saldo negativo antes do vencimento e como calcular a marcação a mercado.
Todo investidor que compra um Tesouro Prefixado ou um Tesouro IPCA+ pela primeira vez passa pelo mesmo susto: poucas semanas após investir em renda fixa, abre o extrato da corretora e vê a rentabilidade acumulada negativa. A reação imediata costuma ser achar que a renda fixa deu prejuízo ou que a corretora cobrou alguma taxa oculta.
Na realidade, esse fenômeno é a marcação a mercado (mark-to-market) — a atualização diária do preço pelo qual o seu título poderia ser vendido antecipadamente naquele exato dia útil 1. Entender essa mecânica evita que você venda um excelente título no pior momento possível ou permite que você capture ganhos extraordinários quando o ciclo de juros vira.
A regra fundamental: vencimento vs. venda antecipada
Antes de ver a matemática, grave a distinção contratual estabelecida pelo Tesouro Nacional 2:
- Se você levar o título até a data de vencimento: Você receberá exatamente a taxa contratada no momento da compra (por exemplo, 11,50% ao ano no Prefixado ou IPCA + 6,30% ao ano no Tesouro IPCA+), não importa o que aconteça com o preço do título no meio do caminho 1.
- Se você vender o título antes do vencimento: O Tesouro Nacional recompra o seu papel pelo preço unitário (PU) de mercado vigente no dia da venda, que pode ser maior ou menor do que a curva teórica contratada 12.
A gangorra entre taxas de juros e preço unitário (PU)
Por que o preço de um título público sobe quando a taxa de juros de mercado cai, e cai quando a taxa de juros sobe? Porque o valor final de face no vencimento (no caso do Tesouro Prefixado, R$ 1.000,00 por unidade) ou o valor nominal atualizado (VNA, no caso do Tesouro IPCA+) é fixo na fórmula de desconto 2.
No Tesouro Prefixado (LTN), a fórmula oficial do Preço Unitário (PU) com base em 252 dias úteis por ano é 2:
$$\text{PU} = \frac{\text{R$ } 1.000,00}{(1 + i)^{\frac{du}{252}}}$$
Onde:
- $i$ é a taxa de juros anual praticada pelo mercado naquele dia;
- $du$ é o número de dias úteis restantes até o vencimento.
Repare que a taxa $i$ está no denominador da fração. Portanto:
- Quando a taxa de juros $i$ do mercado sobe, o denominador aumenta e o Preço Unitário (PU) cai imediatamente.
- Quando a taxa de juros $i$ do mercado cai, o denominador diminui e o Preço Unitário (PU) dispara imediatamente 1.
Exemplo ilustrativo: o que acontece com seu saldo se a taxa subir ou cair
Nota sobre o exemplo: Os cálculos abaixo são uma ilustração didática utilizando a fórmula oficial de 252 dias úteis do Tesouro Nacional 2. Para ver a taxa real vigente hoje, consulte o painel do Tesouro IPCA+ e da Taxa Selic.
Suponha que hoje você compre 10 unidades de um Tesouro Prefixado com vencimento em exatos 4 anos (1.008 dias úteis) pagando uma taxa contratada de 11,00% ao ano:
- Preço Unitário (PU) na compra: $\frac{1.000}{(1{,}11)^4} = \text{R$ } 658,73$ por título.
- Valor total investido (10 títulos): R$ 6.587,31.
- Valor garantido no vencimento (daqui a 4 anos): R$ 10.000,00 brutos.
Agora imagine que se passou 1 ano (restam 3 anos, ou 756 dias úteis para o vencimento). Pela curva teórica contratada (a 11,00% a.a.), seus 10 títulos deveriam valer $\text{R$ } 6.587,31 \times 1{,}11 = \mathbf{\text{R$ } 7.311,91}$ (+11,00% no ano). Veja o que aparece na tela da sua corretora em três cenários diferentes de mercado após esse primeiro ano:
| Cenário de mercado após 1 ano (restam 3 anos) | Taxa de mercado vigente no dia | Novo PU de 10 títulos: $\frac{10.000}{(1+i)^3}$ | Rentabilidade no extrato em 12 meses | Diferença contra a curva teórica (R$ 7.311,91) |
|---|---|---|---|---|
| Cenário 1: Taxas estáveis | 11,00% a.a. | R$ 7.311,91 | +11,00% | R$ 0,00 (exatamente na curva) |
| Cenário 2: Juros subiram (+2,0 p.p.) | 13,00% a.a. | R$ 6.930,50 | +5,21% | -R$ 381,41 (deságio temporário) |
| Cenário 3: Juros caíram (-2,5 p.p.) | 8,50% a.a. | R$ 7.829,08 | +18,85% | +R$ 517,17 (ágio de marcação) |
Observe o efeito da gangorra:
- No Cenário 2, como o mercado passou a exigir 13,00% ao ano pelos próximos 3 anos, seu título teve de cair de R$ 7.311,91 para R$ 6.930,50 para que qualquer novo comprador receba 13% ao ano de R$ 6.930,50 até R$ 10.000,00. Se você não vender, ainda receberá os mesmos R$ 10.000,00 no vencimento.
- No Cenário 3, como a taxa de mercado caiu para 8,50% ao ano, o seu título que garantia 11,00% ao ano ficou muito valioso e saltou para R$ 7.829,08, entregando 18,85% em apenas um ano — muito acima da taxa contratada.
O papel do prazo (Duration): por que títulos longos oscilam tanto
A sensibilidade do preço de um título à variação das taxas de juros depende diretamente do prazo restante até o vencimento (medido tecnicamente pela duration de Macaulay) 2:
- Em um título com vencimento em 1 ano: Se a taxa de mercado subir 1 ponto percentual (100 bps), o preço unitário cai cerca de 0,9%.
- Em um Tesouro IPCA+ Principal com vencimento em 20 anos: Se a taxa real de mercado subir 1 ponto percentual (por exemplo, de IPCA + 6,0% para IPCA + 7,0%), o preço unitário cai aproximadamente 17% a 19% no curto prazo ($1 - (1{,}06/1{,}07)^{20} \approx -17{,}1%$).
Por isso, títulos de longo prazo como o Tesouro IPCA+ 2045 ou o Tesouro RendA+ oscilam tanto ou mais do que a bolsa de valores no curto prazo e jamais devem ser usados para guardar dinheiro que você possa precisar nos próximos 12 ou 24 meses 1. Para objetivos de curto prazo e reserva de emergência, o único título imune à marcação a mercado negativa da taxa básica é o Tesouro Selic.